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O fim do emprego... E, talvez, das empresas

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Carteira de Trabalho

Nos últimos dias minhas timelines têm sido inundadas de argumentos e reflexões sobre a realidade do mercado de trabalho, a ponto de eu não conseguir fazer de conta que nada está acontecendo: o mercado de trabalho e as relações profissionais estão em crise.

Há alguns dias acabei me envolvendo em uma discussão em uma rede social sobre o mercado de trabalho que, por mais banal que pareça, mexe profundamente com minhas crenças e com minha visão de mundo. Mas antes de falar sobre essa discussão gostaria de esclarecer alguns pontos.

Geração de egoístas, egocêntricos e mimados. E incompetentes que confundem empresas com patrões. #desabafo #tafoda pic.twitter.com/uEfjisbENF

— Sergio Mari Jr. (@sergiomarijr) 16 fevereiro 2016

Embora o título deste post seja bastante trágico, acredito que esta ainda não seja uma realidade generalizada. Por enquanto acredito que diga respeito apenas a alguns setores da economia, especialmente àqueles relacionados a serviços profissionais. Porém, tenho motivos para acreditar que é uma questão de tempo até que esse fenômeno se ramifique por todos os mercados.

Meu círculo de contatos é formado, de um lado, por profissionais, professores e estudantes de comunicação (publicitários, jornalistas e relações públicas), e de outro lado por empresários e empreendedores em diversas áreas, muitos dos quais conheci prestando meus serviços profissionais. Procuro sempre levar em conta as perspectivas desses “dois lados” para avaliar e tentar compreender a questão que pretendo tratar aqui.

Talvez esta questão seja uma das consequências do individualismo contemporâneo, tão bem denunciado por Leandro Karnal, ou uma das características da modernidade líquida de Bauman... Seja como for não há como escapar ao menos da sua discussão, por mais áspera que ela prometa ser.

Ou ainda talvez seja um dos aspectos do aclamado conflito entre a Geração X e a Geração Y. Pelo menos foi nesse ponto que eu comecei a me atentar para essa questão. Há uns 4 ou 5 anos comecei a ouvir ceticamente os prenúncios desse conflito. Era como se eu resistisse a creditar que as diferenças entre as gerações fossem suficientes para causar mudanças significativas em nossa sociedade. Para ser sincero, até hoje não estou totalmente convencido quanto a isso.

Há alguns dias, vindo de diversas direções, pousou algumas vezes sobre as minhas timelines um texto escrito por Icaro de Carvalho com o título “O que diabos aconteceu com a geração Y”, denunciando que em algum momento os membros dessa desordem nada secreta chamada Geração Y se perderam em suas relações de trabalho, transformando-se “da geração que iria mudar a maneira com que o mundo se relaciona a um bando de bebês de meia idade, que mora de aluguel e que o ponto alto do ano é o lançamento de mais um filme da guerra nas estrelas”.

Como sempre duvidei dos poderes curadores da sociedade atribuídos à Geração Y, não consigo avaliar até que ponto essa crítica se justifica, mas quando li nesse texto que a suposta geração revolucionária estava se transformando em uma geração de escravos, fiquei chocado.

Na mesma linha, há poucas horas, pipocou nas minhas timelines o texto intitulado “Emprego: tem mais acabou”, do Michel Lent, que alerta para o fato de que “a ideia de alguém hoje entrar numa empresa aos 24 anos de idade e sair de lá aos 65 é absolutamente impensável”.

Se não fosse porque você iria provavelmente morrer de tédio ficando tanto tempo num mesmo lugar, seria porque a empresa provavelmente seria desbancada por alguma startup disruptiva, comprada por algum conglomerado, ou simplesmente porque você iria rodar numa leva de downsizing em função da economia global. (Michel Lent)

Esses textos foram me levando a juntar alguns pontos. Percebi que entrar nessa discussão que citei acima foi uma atitude impulsiva de minha parte. Talvez fosse mais inteligente me abster de qualquer comentário e simplesmente acompanhar os argumentos, aprendendo com eles. Algo que me seria bastante difícil, dado tamanho da angústia que esse tema me provoca.

Vou tentar, então, relatar alguns trechos dessa discussão sob o meu ponto de vista, bastante particular, mesclando-os com minhas opiniões. Faço isso como um exercício para deixar as coisas claras para mim mesmo. Sinta-se a vontade para comentar mesmo que suas opiniões sejam contrárias às minhas. 

Tudo começou quanto uma pessoa postou a seguinte pergunta em um grupo de profissionais de uma determinada área:

Recentemente fiz uma entrevista de emprego. Passei pela primeira etapa e, antes da segunda, perguntei qual seria o salário para a vaga. Pela reação dos recrutadores, fiquei com a sensação de ter cometido um crime ao falar em salário naquele momento. Será que estou errado em querer saber quanto iria ganhar antes de passar por todas as etapas da seleção?

Ao ler a pergunta, instintivamente me coloquei no lugar dos recrutadores e percebi que eu também ficaria espantado com a pergunta sobre salário, principalmente se o entrevistado fosse um jovem em início de carreira, como de fato era.

Dormi com essa inquietação cabeça. No dia seguinte abri novamente o fórum para ver se haviam respostas. Como não poderia deixar de ser, haviam dezenas de comentários, quase todos de pessoas de pouca idade (e isso não é um problema em si!) e quase todos concordando em criticar a atitude da empresa e considerando um absurdo a omissão sobre a remuneração.

Não quero entrar no mérito. Não pretendo defender a empresa ou o candidato. Quero apenas evidenciar um aspecto que me incomoda muito na postura da tal Geração Y em relação ao mercado de trabalho.

Sabe-se que uma das características dessa geração é o egocentrismo exacerbado. Seja porque foram mimados ou por que foram motivados a irem atrás de seus sonhos acima de qualquer dificuldade, os Y acreditam ser superimportantes ou especiais. Em um certo ponto de vista todos somos especiais... Mas é necessário se colocar isso em perspectiva sob a pena de nos tornarmos egoístas babacas (#tatendo).

E o centro da questão que estou abordando aqui é que essa sensação distinção e superioridade tem levado muitos jovens profissionais a se sentirem astros do rock ao procurarem empregos. Ingenuamente muitos estão sendo levados a acreditar que, nas relações de trabalho, as empresas estão a seu serviço, e não o contrário. Nessa perspectiva, faz todo o sentido a afirmação feita em uma das respostas para a pergunta inicial:

– As empresas também têm deveres. Um deles é informar o salário para os candidatos, ora. Simples assim. Quando você compra algo, não é obrigado ter uma etiqueta com o preço?

Difícil responder. A relação entre empresas e profissionais é simbiótica. Um depende do outro. Mas não é e não tem como ser uma relação igualitária. Quando se trata de relações de trabalho empresas são maiores do que indivíduos. O que não é muito fácil de aceitar para alguém que foi tratado como um semideus a vida toda:

– O que ocorre é uma troca, e as duas partes são igualmente importantes. Não é justo uma ter mais informação do que outra.

Por mais importantes que as pessoas que fazem parte das empresas sejam, e de fato são, “o todo é maior do que a soma das partes”, ou seja, a empresa é maior do que os valores de cada um que faz parte dela individualmente. É difícil admitir isso quando a vida inteira te disseram o contrário, mas é sim justo a empresa querer ter mais informações sobre você e não, ela não tem obrigação de mudar os processos dela só para te agradar. Você não é a única opção para ela. Doeu?

Em outra resposta, quando a discussão girava em torno de avaliar a afinidade do candidato antes de oferecer a vaga e o salário, questionou-se o seguinte:

– Afinidade? Mal te conheço e você  quer que eu me apaixone pela sua empresa e seu projeto?

Sim! Senão porque diabos você trabalharia lá? A empresa precisa de alguém que produza, que gere resultados, que se engaje em seus projetos. Ela não existe para te fazer massagem nos pés. Nesse caso você é que teria de pagá-la. É você quem tem que servi-la, e não o contrário.

Que fique claro que essa serviência a que me refiro não tem nada a ver com submissão ou com exploração da mão-de-obra, aos moldes do que se fazia no início da revolução industrial. Falo de relações moderna de trabalho, de produção e entrega de valor, de sinergia.

Uma empresa, que é maior que você e que é maior inclusive que os próprios donos dela, é capaz de gerar mais riqueza a partir do seu trabalho do que você geraria sozinho. Ela reparte essa “riqueza extra” com você. Se você não gosta dessa relação, existe opção. Você pode optar por trabalhar sozinho. Inclusive levantaram essa hipótese em algumas respostas:

– Empresas só existem porque existe alguém disposto a fazer o trabalho que os patrões já não são capazes de fazerem sozinhos.

Abstraindo a parte da confusão entre empresa e patrão, sim, empresas existem para fazer o trabalho que uma pessoa só não consegue fazer sozinha. Assim se gera mais riqueza e todos ficam mais felizes. Um profissional pode sim optar por trabalhar sozinho, mas conseguirá gerar a mesma quantidade de riqueza que a empresa em todo seu conjunto e sua sinergia consegue gerar? Você consegue? Consegue mesmo ou só acha que consegue porque te disseram que você é um ser superimportante e especial?

Será que um profissional que opte por trabalhar sozinho e obtenha sucesso com isso, em algum tempo não deixará de conseguir fazer todo o trabalho sozinho e terá que se tornar uma empresa, contratar outros profissionais e começar a praticar o discurso contrário?

Eu entrei na discussão para dizer que na economia a empresa é maior que um indivíduo e que para o indivíduo e para a sociedade é bom que elas existam... É claro que os superprotegidos não aceitaram e me deram os tapas na cara que eu merecia:

– Não há diferença entre patrão e empregado. Existe a possibilidade de rescisão por justa causa em ambos os lados.

Muitas respostas vieram no sentido de dizer que não o fato de informar a remuneração de imediato seria uma espécie de “jogada” ou de estratégia das empresas para conseguirem profissionais mais baratos.

– Dessa forma a empresa não se compromete. Entrevista vários profissionais e contrata aquele que tem a menor pretensão salarial. Palhaçada sem tamanho.

– Não revelam a remuneração quando há muito candidatos para que no final do processo possam avaliar se é possível contratar por um valor mais baixo. Se informarem o valor antes, quebram o esquema.

Esquema?

– Esquema de economizar.

Sim! As empresas querem economizar e estão corretíssimas ao fazer isso. Não se constrói uma empresa esbanjando dinheiro. Prefiro trabalhar em uma empresa que economiza, pois ela certamente terá vida mais longa do que uma que esbanja (#ficaadica).

– O empregador tem que informar quanto pode pagar por aquele serviço e cabe ao candidato avaliar a empresa e aceitar o não.

Está certo, menos na parte que diz que “o empregador tem que...”. A única coisa que ele tem é a opção de informar ou não. Da mesma forma que o profissional tem a opção de se candidatar para a vaga ou não. Mas precisa tralhar pra pagar as contas né?

Em geral o discurso é muito contraditório. Dizem que a empresa não tem o direito de ser “toda poderosa” ao mesmo tempo em que esnobam empresas por serem pequenas ou por ainda não terem a estrutura megalomaníaca que as multinacionais bacanas que viram na internet dizem ter.

– E quando você vai fazer a entrevista a empresa é no fundo do quintal?

Se a empresa for boa, com um produto bom e boa perspectiva de mercado eu entenderia isso como uma das mais belas oportunidades que o mercado de trabalho poderia me oferecer no começo da carreira: crescer junto! Faz sentido para você? Crescer? Ou aos 19 anos você já passou dessa fase?

– Depois de várias etapas de seleção te oferecem uma mixaria e te dão várias funções para desempenhar sozinho. Falta de respeito! Já aconteceu comigo e eu não aceitei.

Se esse relato fosse feito por uma pessoa de uns 40 anos de idade, com uma boa experiência no mercado, com um histórico de grandes realizações profissionais, eu concordaria. Mas pela foto do perfil quem disse isso foi um garoto de uns 20 anos, no máximo. Pode ter perdido a oportunidade da vida dele. Pelo menos perdeu a chance de entrar para o mercado de trabalho e colocar alguns meses de experiência no currículo, o que lhe garantiria a abertura da próxima porta.

Um último argumento, que apareceu em uma das últimas respostas da discussão foi o mais autodestrutivo, na minha opinião:

– Trabalhar em empresa é o caralho! Meu nome é freelance pô!

Certo! Então teremos um mundo sem empresas em que todos trabalharão por conta porque é mais legal. E iremos trabalhar freelance para quem quando as empresas desaparecerem?

Não tenho conclusões a respeito. De momento fico com Andrew Keen, que no livro “O Culto do Amador” discute alguns comportamentos que estamos tendo em função das facilidades da vida moderna que, no final das contas estão destruindo o modo como ganhamos dinheiro.

Em vez disso, usemos a tecnologia de uma maneira que estimule a inovação, a comunicação aberta e o progresso, preservando ao mesmo tempo padrões profissionais de verdade, decência e criatividade. Essa é nossa obrigação moral. É nosso dívida tanto para com o passado quanto para com o futuro. (KEEN, 2009, p.191)

Não sejamos a geração do fim das empresas.

P.S.: Todas as participações na discussão citadas aqui foram reescritas, sem perder seu sentido, pois estavam muito mal redigidas.

Referências

KEEN, Andrew. O Culto do Amador: como blogs, MySpace, YouTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.


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